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A Torre de Babel

"Asseguram os ímpios que o disparate é normal na Biblioteca e que o razoável (e mesmo a humilde e pura coerência) é quase milagrosa excepção."

Jorge Luís Borges, A Biblioteca de Babel

 

 

quinta-feira, junho 16, 2005

Os limites da imperfeição

Uma novela-folhetim para os tempos correntes
(continuação)

I. PRIMEIRAS APRESENTAÇÕES

Quem se abalance a tomar-me o braço ao longo de estes excursos necessariamente dará comigo alguns passeios, que eu me esforçarei por tornar ligeiros, e intercalados de pausas bastantes para merendar. Por tanto, a cortesia impõe-me que eu de antemão anuncie que nem sempre estaremos a sós - o leitor e eu.
Esta nossa novela não vive, como o leitor decerto compreenderá, sem umas historietas entretecidas, arroba e meia de personagens, umas colheradas de aquilo a que por vezes se chama o picante: e isso impõe-nos, bem vê, alguma companhia. Queira o leitor relevar-me a sobrepopulação destas linhas, em troca de eu o fazer meu confidente.
Competem-me as apresentações; mas não julgue o leitor que, trazendo-lhe eu ao conhecimento umas três ou quatro pessoas, lhes estou afiançando o carácter: é somente para que saiba com quem anda, nada mais. Permita-me, assim, que lhe faça presente, desde agora, a seguinte

Tábua de Personagens
acolitada por extractos dos respectivos registos civis
AMÉLIA
76 anos, solteira
Frequentou a boémia lisboeta dos anos 50; falhou uma carreira em S. Carlos, onde, segundo afirma, teria dado uma extraordinária Carmen; foi fadista amadora, e poetisa menor; e pouco mais; guardou muitos amigos, quase todos hoje falecidos. Apesar de entrada em anos, nada augura a sua própria morte, a qual contudo ocorrerá no transcurso desta novela.
*
JOSÉ
52 anos, espécie de viúvo
Poderia ter sido um excelente pintor, e talvez outras coisas. Cortou relações com a família há anos. Traz para casa, seis dias por semana, uma ou duas caixas tupperware abastecidas numa sopa dos pobres. A roupa que enverga raramente não traz nódoas.
*
MARGARIDA
30 anos, recém-casada com um engenheiro que conheceu on-line
Licenciada em germânicas, trabalha à hora para uma empresa de sondagens telefónicas.
*
PEDRO
32 anos, solteiro
Por ser como que o protagonista deste folhetim, dir-se-á somente que é a sua imperfeição aquela a que se faz alusão no título; sem que isto deva fazer dele, perfeitamente, um homem sem qualidades.
.
Esta incoativa relação de gente, assim apresentada, perfuma uma essência dramatúrgica, que não foi despropositada; mas, como o leitor pôde observar, não há por aqui vaqueiros nem aias da Rainha. Os sucessos documentados nesta novela não tomam lugar no paço, mas principalmente nas ruas da alta e da baixa de Lisboa. Lembra-me agora que o Nemésio, com medo de que os leitores pudessem perder-se no meio de tanta canzoada, também se viu obrigado a manufacturar uma lista dos circunstantes no seu Mau Tempo no Canal. Esteja todavia descansado o leitor, e venha sem medo, que nesta novela não corre semelhante risco de perdição. Se o leitor não frequentou o Nemésio, pois vá lê-lo, e vai bem: mas quando lhe chegar às portas da poesia, dispense-se de mais avanços e torne aqui ao folhetim: sacrifício por sacrifício, este sempre lhe há-de pesar menos.
A nossa Tábua ordenou-se alfabeticamente, para não melindrar alguém. Todavia esta história inicia-se com José, no final de uma manhã de Março: como é seu uso quotidiano, José percorre, caminhando, os três quarteirões que distanciam a sua casa do centro de ajuda alimentar de onde diariamente recebe o almoço, e que é uma variante moderna da sopa dos pobres. Diariamente, não digo bem: às terças-feiras, José não chega a entrar. Os homens guiam-se por razões que, por vezes, sobrepujam o clamor da fome, e é este um desses casos. As terças-feiras passa-as José sem outro nutrimento que não o de uns copos de água açucarada, quando não sobeja algo da comida da véspera: e todavia é nesses dias que o costumeiro caminho é vencido com mais alvoroço. O leitor já adivinha que se ficam devendo à mesma causa a fome e o desassossego.
Hoje é terça-feira, exactamente. O passo de José, não sendo lento, não chega a ser correria. Acompanhá-lo-emos, pois, sem canseira - eu com José, e o leitor connosco.
(continua)

3 Comments:

Blogger 100 nada said...

Oh meu Deus, o que é que acontece às terças, o quê, o quê???
(aguardando com ansiedade)

12:05 da tarde  
Blogger 100 nada said...

Oh meu Deus, o que é que acontece às terças, o quê, o quê???
(aguardando com ansiedade)

12:05 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

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8:54 da tarde  

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