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A Torre de Babel

"Asseguram os ímpios que o disparate é normal na Biblioteca e que o razoável (e mesmo a humilde e pura coerência) é quase milagrosa excepção."

Jorge Luís Borges, A Biblioteca de Babel

 

 

quinta-feira, junho 23, 2005

Os limites da imperfeição

Uma novela-folhetim para os tempos correntes
[sai às quintas-feiras]

(continuação)

II. PRÈS DES REMPARTS DE SÉVILLE

Enquanto isso, Amélia dava princípio ao seu dia.

Não se surpreenda o leitor. Ensina-se nas escolas, e nesses compêndios de que gastam os modernos aprendizes do português e das literaturas, que existe uma coisa a que chamam narrador omnipresente. Pois bem: isso é uma calúnia que não faz honra ao labor de quem conta uma história. Não quero dizer que o dom da ubiquidade seja uma quimera que caiba somente nas páginas da mitologia mais fantasiosa; mas é evidente que os verdadeiros donatários são os leitores, não os novelistas. Quem toma em mãos um livro pode sempre galgar capítulos inteiros e situar-se aqui ou além, ou onde lhe apeteça o descanso, e de qualquer poiso vislumbrar o panorama; ainda que isso possa não ser tão simples para o freguês de um folhetim hebdomadário. Mas o cumprimento da escrita impõe, por serviço e obrigação, um percurso rigorosamente numerado. O folhetinista só tem licença para vistoriar um local de cada vez, e nunca antes de tempo.

Na semana transacta, como o leitor trará na lembrança, seguíamos nós com José e com as razões que o norteiam por suas famigeradas terças-feiras (é o termo certo, famigeradas). Lá iremos; por ora, o despertar matinal de uma outra personagem cativou-me a ponderação. O leitor ubíquo, se assim o desejar, pode suspender a leitura e aguardar pelo regresso de José: trá-lo-ei na semana vindoura, ou porventura um pouco mais tarde. Porém eu, obrigado a acompanhar com a escrita os desvarios da minha atenção, sou forçado a intercalar aqui estas outras linhas. Enquanto isso, pois (dizia eu), Amélia principiava seu dia.

- Menina Amélia, já acordou?

Maria assomava ao quarto, algo ajoujada a um tabuleiro em que transportava café, torradas, cigarros e um baralho de cartas. Entreabriu a porta às arrecuas, e foi entrando; pousou o tabuleiro na mesa-de-cabeceira, correu os cortinados e separou as portadas para desimpedir a luz e o frescor da aragem. Não se podia dizer de Amélia que estivesse mal ou bem conservada: essa linguagem de anchovas e pickles não se lhe aplicava com propriedade. Aos setenta e seis anos, aforrara prazeres e liberdades a que o corpo e as faces, naturalmente, não haviam ficado insensíveis: não se tratava de rugas nem sequer de cicatrizes, mas de condecorações. Maria apressava-se, e já vinha sem a farda.

- Eu vou andando, menina, que hoje é terça-feira. O almocinho é só aquecer.

Amélia trouxe à boca o café forte, e depois acendeu um cigarro. Agarrou nas cartas, baralhou-as, partiu-as três vezes e, de olhos semicerrados, volteou-as sobre a colcha: primeiro três cartas, e logo mais quatro. Examinou-as com atenção. Certa vez, numa das tardes passadas na esplanada da Mexicana, Amélia confessara ao maestro Tranchefort que nunca saía da cama sem consultar as cartas. René fizera-se escandalizado: o galicismo, aqui, é menos culpável.

- Não pensei que acreditasse nessas coisas, madame. Espiritismo, bruxarias, e assim.

- Que disparate, maestro. Gosto de estar sempre bem informada, nada mais.

Amélia soubera em todas as épocas ajustar-se aos reveses do mundo, e não se preparava para coisa alguma senão com um dia ou dois de antecipação, quando muito. O presente nunca a defraudava. Conseguia, com um relance, apreciar completamente os vértices de uma ocasião, e reclamar o lugar que entendia pertencer-lhe; aprendera desde cedo as vantagens de situar-se em uma localização precisa, mais que as da estratégia ou as da simples precaução. Por isso, todas as manhãs, interrogava as cartas apenas acerca do restante do dia, e nunca curiosava a propósito das semanas ou dos meses seguintes. Mas René ficara intrigado.

- Um dia há-de deitar-me as cartas.

- As cartas são impiedosas, como dizia a Carmen. Não se meta nisso, maestro.

Também Amélia tivera e entretivera galants, que podiam muito bem contar-se pelas dozenas: os seus leitões, como por vezes dizia. Mas o valete de copas não lhe aparecia havia muitos anos, o que ela encarava com naturalidade. De qualquer maneira, jamais descurava a apresentação. Flamejavam-lhe sempre, para o dizer de algum modo, os cabelos e os lábios; e com os óculos escuros, que só tirava dentro de casa, era já uma dessas mulheres sem idade e sem remorsos cujo passado é denunciado somente por um perfume provocador e por uma certa maneira de caminhar. Desenvolta, sim, mas não era apenas isso. Na esplanada da Mexicana, com uma perna cruzada sobre a outra, Amélia lançava para trás o pescoço enquanto René se inclinava, solícito, para lhe acender um cigarro.

- E se um dia as cartas lhe anunciarem que vai morrer?

- Levanto-me imediatamente e vou tomar o meu banho. Não quero morrer na cama.

(continua)

3 Comments:

Blogger irreflexões said...

Dá gosto ler-te, ou melhor, ler o teu folhetim, PÁ!

6:32 da manhã  
Blogger 100 nada said...

Excelente!

10:23 da manhã  
Blogger mm said...

Hum... Isto está a crescer... Bom, muito bom.

12:58 da manhã  

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