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A Torre de Babel

"Asseguram os ímpios que o disparate é normal na Biblioteca e que o razoável (e mesmo a humilde e pura coerência) é quase milagrosa excepção."

Jorge Luís Borges, A Biblioteca de Babel

 

 

sexta-feira, julho 01, 2005

Os limites da imperfeição

Uma novela-folhetim para os tempos correntes
[sai às quintas-feiras, quase sempre sem atraso]

(continuação)

III. TAUROMAQUIA

Se descontarmos os extraterrestres, o rapto é coisa que já não se pratica muito. Há por aí, bem sei, uns delinquentes de vão-de-escada que se dedicam à ladroagem de empresários e magnates, exigindo depois, por telemóvel, quantias imodestas para remissão de suas vítimas - que previamente degolaram, ou mergulharam em cal viva, ou o que queiram. Mas eu estou pensando nesses roubadores de gente, como os houve antigamente, que se desculpavam com os impulsos do desejo e executavam os seus desígnios com uma destreza que nada tinha de latrocínio: como fazia Zeus, por exemplo. Não digo, é claro, que agora os homens consigam assim transmudar-se em touros, simulando mansidão, para que ninfas ingénuas corram a ascender-lhes ao dorso; contudo, o desuso do rapto lúbrico deve-se mais à decadência dos engenhos da espécie masculina do que ao facto de vivermos em tempos de menos mitologias. Não sei se me explico bem.
Margarida conhecera Pedro na faculdade, que ambos haviam frequentado pela mesma época, embora em anos diferentes. Margarida (que, aos dezoito ou dezanove anos, pouco sabia de cultura clássica) não se importaria de ter sido raptada, logo desde os primeiros momentos. Davam longos passeios pelo Campo Grande, e Pedro tinha uma maneira vagarosa de a acompanhar que ela erradamente julgou ser sintoma de interesse, se não de requebro. Muito abrasada, afoitou-se um dia a uma conversa em que, como alguns dizem, se declarou, e que foi ainda um estertor sentimental da adolescência; e, pela resposta, ficou sabendo que os gostos de Pedro eram muito outros. Naqueles tempos, Pedro iniciava-se nas aventuras da noite, que então Lisboa oferecia com menos perigos e talvez mais discrição; há certos bares que hoje operam como festivas antecâmaras do sexo e servem uma clientela que nunca surge antes das primeiras horas da madrugada, mas que ainda há dez ou quinze anos serviam cafés e tostas logo a partir das nove da noite. Confortada no seu brio feminil, Margarida secou as lágrimas; e a amizade continuou.
Ora o segredo de uma relação duradoura está muitas vezes num desequilíbrio das forças. Entre Pedro e Margarida sobrevivia uma amizade desigual, que os dois cumpriam como um velho hábito que se não questiona. Em dez anos, todavia, haviam ambos mudado muito. Margarida licenciara-se, com algum esforço e sem distinção. Pedro fizera-se tradutor de inglês e alemão, sobretudo de poesia, e era costume que mostrasse a Margarida as traduções em que se ia ocupando. Para dizer a verdade, Pedro não esperava dela sugestões muito pertinentes, nem Margarida se julgava capaz de lhas oferecer rigorosamente; porém ele simulava o interesse e ela a erudição, e ambos mantinham esse fingimento da colaboração e do respeito. Havia em Pedro, perpetuamente, uma sobranceria pouco agradável que Margarida sabia interpretar e não levava a mal.
- Como vai o Göethe? - perguntou Margarida.
- Não se pronuncia assim.
O Göethe, de facto, não ia bem; dentro de duas semanas, mais ou menos, teriam de estar terminadas as traduções que lhe pedira o maestro Tranchefort, para o programa de um recital de canto e piano em que seriam apresentadas canções de Schubert; e Pedro atrasava-se muito.
- O Göethe não vai bem. Ainda só traduzi o Erlkönig.
- Deixa-me ver.
Pedro abriu o caderno em que escrevia as suas traduções e, sobre a mesa, virou-o para Margarida; os seus gestos, como sempre, eram de uma lentidão por vezes exasperante, o que não resultava de acídia mas de um feitio raro que aborrecia a rapidez. Margarida olhou para o título do poema.
- Não deveria chamar-se O Rei dos Elfos?
- Isso são asneiras dos dinamarqueses. O Göethe sabia muito bem o que fazia.
Margarida pegou no caderno e mudou de posição na cadeira, para ficar mais confortável. O leitor deste folhetim, se quiser, coloque-se comigo aqui por trás dela e, em silêncio, leremos os três, contemporaneamente.

....................O REI DOS ÁLAMOS

....................Tão tarde a cavalo, na noite quem vai?
....................Vão dois: o menino, e o leva seu pai,
....................que ao filho, seguro e por si sobraçado,
....................o traz aquecido, e o julga salvado.

....................- "Meu filho, tu escondes a face porquê?"
....................- "Vejo o Rei dos Álamos; pai, não o vê?
....................Com manto e coroa; é ele que ali está"!
....................- "Meu filho, é neblina, cercando-nos já".

...................."Suave criança, vem cá, vem comigo,
....................vem, vamos brincar! Mostro-te um jogo antigo,
....................e as flores coloridas na costa, e também
....................vestidos dourados que fez minha mãe".

....................- "Meu pai, ó meu pai, esteja atento: escutou
....................o que o Rei dos Álamos me sussurrou?"
....................- "Sossega, criança, repousa sem medos:
....................é vento, soprando por entre arvoredos".

....................- "Vem, anda comigo, rapaz, por que não?
....................Vem ver minhas filhas: receber-te-ão,
....................dançando e cantando, contigo no meio,
....................canções que te tragam, e a teu sono, enleio".

....................- "As filhas, pai, do Rei dos Álamos: viu?
....................Na noite sombria, meu pai, entre o frio".
....................- "Meu filho, bem vejo o que está por diante:
....................Salgueiros, tão-só, de um cinzento constante".

....................- "Eu amo-te; encanta-me o semblante teu;
....................se não vens sozinho, capturo-te eu!"
....................- "Meu pai, estou ficando cativo, meu pai!
....................Tem-me o Rei dos Álamos; quer-me, não vai!"

....................O pai, com horror, esporeou a montada,
....................em braços estreitando a criança assustada;
....................chegou, a final, ao destino e à porta;
....................nos braços do pai, a criança era morta.

- Parece-me bem - disse Margarida. - Sente-se aquele horror romântico da floresta desconhecida.
- Não é nada disso. É um poema sobre um rapto, um rapto lúbrico. Como os de Zeus, entendes?
- Não. Seja como for, parece-me bem.
- Se calhar ainda emendo umas coisas. Pelo menos acho que ficou melhor do que aquela tradução péssima feita pelo Eugénio de Castro, que não respeita a rima emparelhada, nem o ritmo, nem nada. Nem sequer termina com morta, ou morto.
Margarida devolveu-lhe o caderno.
- Por que escreves tudo à mão? Com o computador seria mais rápido.
- Não gosto. Só uso o computador para combinar encontros.
Pedro frequentava esses chat rooms em que os homens permutam informações sobre as medidas do corpo, em diálogos estenográficos que têm as suas regras. Escolhia sobretudo homens casados, que são mais sigilosos e têm mais urgência de vestir-se e partir. Admitia-os quase sempre em casa e transportava-os às suas costas como se fosse um touro branco, justamente. São estas práticas uma espécie de rapto, se pensarmos nisso; e estes homens que reciprocamente se capturam para o sexo estão ligados a Zeus por um ramo de flora genealógica que pode traçar-se em linha recta.
Aconteceu uma vez que um dos homens recebidos por Pedro julgou vislumbrar nele essa ascendência mitológica: o deus remoto disfarçado no touro, nem menos. O dono desse coração raptado era o marido de Margarida.
(continua)

2 Comments:

Blogger Errante said...

Clap, clap, clap.

O melhor até à data.

Vai custar-me amontoar as baboseiras que escrevinho...

12:08 da tarde  
Blogger Xiaozhengm 520 said...

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4:19 da manhã  

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