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A Torre de Babel

"Asseguram os ímpios que o disparate é normal na Biblioteca e que o razoável (e mesmo a humilde e pura coerência) é quase milagrosa excepção."

Jorge Luís Borges, A Biblioteca de Babel

 

 

sexta-feira, julho 15, 2005

Os limites da imperfeição

Uma novela-folhetim para os tempos correntes
[sai às quintas-feiras, quase sempre sem atraso]

(continuação)

V. PRISIONEIRO DE GUERRA

Entre mim e o leitor há assuntos por esclarecer. Estamos ainda na mesma terça-feira, que vem espraiada já por cinco semanas em que nos ocupámos da explicação dos feitios das personagens, e não tanto da crónica dos factos; mas eu julgo que hoje os leitores de folhetins não se preocupam muito com a ventura, digamos, de órfãos imaginários, nem possuem uma sensibilidade que lhes dê para sofrer de fastio ou de insónias enquanto não apareçam as cenas dos capítulos próximos. Há vida para além dos folhetins, louvado seja Zeus.
Neste momento, pela hora costumada, José aproxima-se enfim do seu destino, e os leitores recordar-se-ão talvez de que hoje é dia de mais fome.
Não há grande felicidade, como sabem, em alimentar-se alguém quotidianamente numa sopa dos pobres - que é ainda um resquício dos tempos em que a providência pública acudia com mais largueza às carências das gentes, oferecendo serviços utilíssimos que incluíam rodas para depósito de enjeitados e outras benfeitorias. No caso de José, porém, o infortúnio extremava-se: trazia-lhe menos sofrimento o ser pobre (a pobreza in re ipsa, se quisermos falar filosoficamente) do que o ter de comer dessa sopa que não era com exactidão uma instância da alta cozinha. Se neste folhetim houver causa para que o leitor piedoso verta duas ou três lágrimas, pois há-de ser esta: José gostava de comida como um padre gosta de escolas primárias. Logo pelos primeiros anos de sua juventude (na época em que ainda se acolhia ao tecto paterno que mais tarde viria a abandonar) dera-se no espírito de José como que uma epifania do garfo: alcandoravam-no ao êxtase a cabidela de galo capão ou o vol-au-vent de perdiz, o soufflé de bacalhau, a cassata napolitana feita em casa com grande aparato de natas e frutas frescas e vagens de baunilha, o pudim de ervilhas, as fatias de Tomar que se coziam numa panela especial que não servia senão para isso. Naqueles tempos, José chegava mesmo a jantar duas e três vezes na mesma noite, fazendo visitas às casas de suas tias, que ordenava segundo os horários (todos diferentes, mas sempre certos) por que se regiam essas mesas familiares. Tocava à campainha assim por volta das nove horas, como se estivesse de passagem, e fazia-se sempre surpreendido pelo convite.
- Entra, entra, Josezinho. Íamos agora começar a jantar: tu já comeste?
- Ainda não, tia.
- Então jantas connosco.
Mandava-se pôr mais um prato na mesa, e passados uns quarenta minutos José estava de novo na rua, trotando apressado em direcção ao bairro em que vivia uma outra tia em cuja casa se jantava só às dez horas da noite, porque o marido, que era advogado ou arquitecto, chegava mais tarde do escritório.
- Já jantaste, rapaz?
- Não, tia.
E tudo isto se perdera depois que José desertara do lar, deserção de que o leitor já tem conhecimento e que se fizera irreversível por causa do seu orgulho e da inflexibilidade de seu pai. Mas dessas excelentes comezainas José conservara memórias nítidas, bem como um palato apurado para os temperos e as ervas-de-cheiro que ainda hoje exercitava em conversa com as senhoras que distribuíam a sopa aos pobres.
- Então, senhor José? Que lhe pareceu a sopinha de ontem?
- Estava bem, dona Ema, estava bem. Mas há-de experimentar deitar-lhe uns raminhos de hortelã. Depois me dirá.
José, pois, vem chegando; e Álvaro aguarda já por ele, na esquina em que se encontram todos os dias. Este Álvaro, amigo de José, é pobre também, e frequentador da mesma sopa; só que muito mais feliz: não é um apaixonado das trufas ou da bouillabaisse, mas do vinho; e, por não ser esquisito, contenta-se com facilidade: qualquer líquido lhe dá alegria, posto que fermentado da uva. Álvaro lamentava apenas que a generosidade das Misericórdias nunca tivesse levado a que se instituísse o vinho dos pobres, ou coisa que o valha; e os amigos tratavam-no por Alvarinho, o que ele não levava a mal. Álvaro cumprimentou José com um aperto de mão.
- Até que enfim; vamos andando, que eu estou cheio de fome.
- Hoje é terça-feira, Alvarinho: vai tu, que eu fico aqui à espera.
E é chegado o momento de saberem os leitores por que razão não se atreve José a entrar na sopa dos pobres às terças-feiras. O caso é simples, e tem mesmo - diria eu, se não me arriscasse a incorrer em redundância literária - o seu quê de folhetinesco. Os leitores já foram informados de alguns sucessos que, se forem unidos na imaginação, lhes darão uma pintura quase completa das causas daquele insólito comportamento de José. Estarão de certo recordados da senhora Maria, que também vinha pela rua nesta terça-feira. Maria, uma vez por semana e há já uns meses, ajuda na distribuição da comida pelos pobres, praticando graciosamente essa caridade que também a entretém. Pois bem: na primeira terça-feira em que viu Maria atrás da bancada, José reconheceu-a em poucos instantes, apesar de não a ver havia muitos anos; e conseguiu sair, azafamadamente, sem que Maria desse por coisa alguma.
Maria era a criada de Amélia nos tempos em que José, por amor desta, decidira contradizer os decretos paternos; e talvez - pensou José, acertadamente - o fosse ainda. Se Maria o visse, logo daria conta a Amélia de que José sobrevivia a expensas de esmolas públicas. Ora José e Amélia não se falavam nem encontravam ia para mais de trinta anos, e a José não lhe interessava substituir a lembrança, boa ou má, que Amélia pudesse guardar dele pela imagem actualizada de um indigente andrajoso e sem ocupação. Maria vinha às terças-feiras auxiliar a servir a comida aos pobres, e nesses dias José deixara de comer. Orgulho, mais do que vergonha: eis o motivo que, no espírito de José, vencera a fome e a vontade de comer.
E todavia, nas últimas terças-feiras, José vinha rondando o edifício durante a hora do almoço, com um propósito só recentemente formulado mas que, por falta de coragem, não conseguira ainda executar. Decidira afinal anunciar-se a Maria, surpreendendo-a à saída da sopa dos pobres, e entregar-lhe um envelope que trazia no bolso. Dentro do envelope estava uma carta para Amélia.
(continua)

1 Comments:

Blogger xccc said...

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5:29 da tarde  

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