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A Torre de Babel

"Asseguram os ímpios que o disparate é normal na Biblioteca e que o razoável (e mesmo a humilde e pura coerência) é quase milagrosa excepção."

Jorge Luís Borges, A Biblioteca de Babel

 

 

sexta-feira, julho 22, 2005

Os limites da imperfeição

Uma novela-folhetim para os tempos correntes
[sai às quintas-feiras, quase sempre com atraso; a pontualidade é um estrangeirismo]

(continuação)

VI. ENVENENAMENTO
Nem sempre se tem presente que o crime é o resultado de um relevo excessivo atribuído às memórias, que são quase sempre geradas pela imaginação e prestam à verdade dos factos uma vassalagem tão fiel como a dos sonhos, quando muito. No rigor dos princípios da metafísica, o crime não existe, uma vez que não seja descoberto; isso a que chamamos mentira, desonestidade, torpeza, e por aí fora, é o resultado da sua revelação somente. Othello preferiria não ter sabido da traição: esta informação, se pensarmos nisso, não chega a ser surpreendente, porque o mouro, desde que adquirira conhecimento certo dos beijos de Desdemona, não pudera já esquecê-los; e era certo - notem - esse conhecimento, apesar da fidelidade da veneziana (não interessa agora se contrafeita). Iago ficcionava um adultério e a sua fábula logo se convolava na realidade de um crime. Por isto também, e conversamente, o crime é acontecido sempre que acreditarmos nisso, e a sua perpetração passa a constar do rol dos eventos de que vamos compondo o nosso mundo de factos lembrados.
Pedro pensava assim. Em dados aspectos, era Pedro uma espécie de Iago invertido (sem trocadilho); fabricava atenuantes e causas de exculpação que lhe serviam de alibi para ocasiões em que o arguíssem de qualquer delinquência, e nunca confessava fosse o que fosse. As confissões são muitas vezes motivadas por um gosto pelo teatro e pelas cenas espectaculares em que se tem a oportunidade de figurar como protagonista, e muito menos pelo remorso; e Pedro, que nunca experimentava remorsos, não era de modo completo uma drama queen.
Isto habilitava-o a desempenhar um grande número de acrobacias de que sempre se saía bem. Por exemplo: era capaz de lançar, numa tradução de um poema, um substantivo ou um verbo que não se filiavam no original; fazia-o por desfastio, ou se a métrica ou a rima lho sugeriam, mas sempre com discrição, para não denunciar a autoria desse acto de infidelidade ao ofício plagiário dos tradutores; e sabia que para muitos leitores o poema veicularia com perenidade aquela palavra mendaz que poderia vir a ter as suas consequências funestas, como um veneno que labora com paciência. E, no que agora nos traz interessados, conseguira executar a notável proeza circense de deitar-se com o marido de Margarida (que horrorosamente se chamava Fernando) e de seguir mantendo com ela, do mesmo passo, a prática regular de uma amizade que prezava até certo ponto sem que visse razão para lhe pôr termo. Apesar de Pedro e Fernando se terem reconhecido logo à porta da casa daquele, não deixaram que essa surpresa lhes fosse impediente da satisfação que ambos desejavam; e o secretismo desse encontro foi coisa que nem sequer necessitou combinação, porque resultava de uma aplicação directa das regras de silêncio que disciplinam o cruising e a sua consumação. No dia seguinte, Pedro encontrara-se com Margarida e almoçaram como se nada fosse: do registo criminal de Pedro não constava inscrição alguma.
O leitor já soube que Fernando se vira - eu diria que involuntariamente - lançado numa paixão que o subjugara a Pedro, e em nome da qual ele se dispunha a dissolver o casamento, a profissão e o que mais houvesse numa vida que até então não conhecera sobressaltos emocionais; consultara a agenda de Margarida e enviava a Pedro sms insensatos que ficavam sempre sem resposta. Há casos assim; sedimentava-se, grão a grão, o desespero de um amor acossado, para o qual Fernando não via uma porta de saída que lhe autorizasse um retorno à sua vida de decepção mas que tinha muito de reconfortante.
E aqui tem o leitor como foi tomando densidade, neste folhetim, uma cumulação de vapores inflamáveis que ameaça deflagrar a todo o momento: na próxima semana, provavelmente.

(continua)

4 Comments:

Blogger irreflexões said...

Muito bem! A trama adensa-se.

6:49 da tarde  
Blogger 100 nada said...

(também chego atrasada para a ler).
Isto está mais curto que o costume ou é impressão minha?
(e quando os leitores começam a apresentar reclamações é o pior...)

11:57 da manhã  
Blogger dong dong said...

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